Ele se divide em quatro partes. Depois de uma importante Introdução à “Hermenêutica da Continuidade” de Bento XVI, Dom Tissier revisa brevemente as raízes filosóficas e teológicas do pensamento do Papa. Em terceiro lugar expõe seus frutos para o Evangelho, para o dogma, para a Igreja e a sociedade, para o Reinado de Cristo e para os Novíssimos. Conclui com um juízo moderado da Fé “renovada” do Papa, bastante crítico, mas em sua totalidade respeitoso. Comecemos com uma resenha da Introdução: —
O problema básico para Bento XVI, como para todos nós, é o choque entre a Fé Católica e o mundo moderno. Por exemplo, ele vê que a ciência moderna é amoral, que a sociedade moderna é secular e a cultura moderna multirreligiosa. Ele especifica que este choque se dá entre a Fé e a Razão, entre a Fé da Igreja, e a Razão tal como se concebe a partir do Iluminismo do século XVIII. Entretanto, ele está convencido de que estas podem e devem ser interpretadas de maneira que possam unir-se em harmonia uma com a outra. Daí sua participação intensa no Vaticano II, um Concilio que também tentou reconciliar a Fé com o mundo atual. Mas os Tradicionalistas dizem que o Concilio falhou, porque estes mesmos princípios são irreconciliáveis com a Fé. Daí a “Hermenêutica da Continuidade” do Papa Bento, um sistema de interpretação para demonstrar que não existe ruptura entre a Tradição Católica e Vaticano II.
Os princípios da “hermenêutica” de Bento se remontam a um historiador Alemão do século XIX, Wilhelm Dilthey (1833-1911). Dilthey sustentava que as verdades se apresentam na história, então só podem ser entendidas em sua história, e as verdades humanas não podem ser entendidas sem o envolvimento do sujeito humano contemporâneo a essa historia. Assim é que para trasladar a essência das verdades passadas ao presente, necessitamos tirar todo o elemento que pertença ao passado, hoje em dia irrelevante, e substituir com elementos de importância para o presente que se vive. Bento aplica à Igreja este duplo processo de purificação e enriquecimento. Por uma parte a Razão necessita purificar à Fé de seus erros passados, por exemplo, seu absolutismo, enquanto por outra parte a Fé necessita conseguir que a Razão modere seus ataques à religião e recorde que seus valores humanos, liberdade, igualdade e fraternidade, se originaram todos na Igreja.
O grande erro do Papa nisto é que as verdades da Fé Católica, sobre as quais se fundou a civilização Cristã e sobre as quais seus restos débeis ainda descansam, não têm suas origens de nenhuma maneira na história humana e sim no seio do Deus imutável. São verdades eternas, desde a eternidade, para a eternidade. “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”, disse Nosso Senhor (Mt, XXIV, 35). Nem Dilthey, nem aparentemente Bento XVI, podem conceber verdades mais além da história humana e acima de todo seu condicionamento.
Se o Papa pensa que ao fazer ditas concessões à Razão sem fé, atrairá os adeptos dela à Fé, que pense de novo. Simplesmente desprezarão à Fé ainda mais!
Em breve, as raízes filosóficas e teológicas do pensamento de Bento.
Kyrie Eleison.